Púrpura secreta

Sábado, Outubro 23, 2004

Um bom professor

.
Incisivo e clarividente o artigo de Luís Aguiar Conraria, publicado no Público de 20 de Outubro último.
Destaco uma parte do texto, no todo que se centra nas capacidades pedagógicas dos docentes universitários e na valorização que um sistema de ensino faz ou pode fazer para incentivar essas competências, investindo nelas, não receando a avaliação dos docentes, que é inevitável, saudável e desejável e a ser feita pelos alunos.
O autor, doutorando numa universidade americana, faz a comparação entre a sua experiência como teaching assistance na exaustiva formação que lhe é dada e exigida pelo sistema americano de ensino superior e a que é oferecida aos docentes universitários em Portugal e, consequentemente, aos alunos, a nível de incentivo, de valorização, da disponibilidade para o próprio professor ser avaliado.



Tenho consciência de que não é fácil avaliar a qualidade pedagógica de um professor. Compreendo também que haverá alguns bons professores que serão injustiçados se um sistema de avaliação pedagógica, com consequência, for levado avante. Mas não nos esqueçamos de quantas injustiças são criadas ao não haver uma avaliação séria dos professores. É injusto para os alunos. É injusto para os pais. É injusto para os bons professores. É injusto para os potenciais bons professores que não encontram colocação nem nas universidades nem nos politécnicos.


E mais adiante:


São poucas (nenhumas?) as universidades portuguesas que têm estas preocupações pedagógicas. Talvez por isso, os meus melhores mestres tenham sido os do ensino secundário. Estes têm de passar por um estágio no início da carreira e, nalguma fase das suas carreiras, também acabam por ser orientadores de estágio.



O que é curioso é que para ser formando em cursos de formação a formadores ( a expressão é sobejamente conhecida e ficou célebre desde o tempo em que eram subsidiados pelo Fundo Social Europeu) é necessário a frequência com aproveitamento de um curso que pode durar até 6 meses ou mais, tanto quanto sei actualmente. Valorizam-se as competências comunicacionais, os formandos desse tipo de cursos aprendem a melhor forma de apresentar um tema, de cativar a atenção do aluno, de posicionar a voz, de adquirir uma postura adequada. São filmados, visionam as suas prestações em vídeo, localizam falhas, aprendem a rectificá-las. Porque não é aplicado este critério nas nossas universidades? ( pergunta de retórica...)

O problema não parte dos professores, mas da forma como o sistema está articulado. A maior parte deles preferiria, penso eu, que houvesse uma maior aposta na sua capacidade de formar, e não apenas na de transmitir conhecimento. O conhecimento é volátil, a formação não. Formar é vasto, dar aulas pode (?) resumir-se a ler o manual da disciplina, como aconteceu comigo numa cadeira do 3º ano da faculdade.

É-me impossível esquecer a minha professora de Português do antigo 9º ano (lá está, o exemplo vem do ensino secundário), que desafiou a turma a ir assistir a vários espectáculos. Nesse ano - tinha eu 14 anos - assistimos a uma opereta ao S. Carlos (O Barbeiro de Sevilha, impossível esquecer), e a peças de teatro no Teatro da Comuna e no Teatro D. Maria.

Penso que é uma questão de sensibilidade também. E de paixão pelo que se faz. Um professor que o é verdadeiramente, sabe intuitivamente como comunicar com os alunos, como os fazer apaixonar-se pelas matérias dadas. Penso ao mesmo tempo que as competências podem ser aperfeiçoadas, a bem da dignificação do papel do professor, da universidade, e tudo isto se reflectirá, em última análise, na aprendizagem do aluno e no entendimento saudável do que poderá ser a 'paixão da educação'.